O dia 20 de novembro faz menção à consciência negra, a fim de ressaltar as dificuldades que os negros passam há séculos. Apesar da polêmica causada pelo vereador Rodrigo Modesto em querer mudar importante data em 2017, justificando que o mesmo atrapalha comerciantes, hoje continua sendo feriado em Pouso Alegre/MG e a data volta a ser comemorada com gosto de mais uma vitória.

A escolha da data foi em homenagem a Zumbi, o último líder do Quilombo dos Palmares, em consequência de sua morte. Zumbi foi morto por ser traído por Antônio Soares, um de seus capitães. A localização do Quilombo ficava onde é hoje o estado de Alagoas, na Serra da Barriga.

O Quilombo dos Palmares foi levantado para abrigar escravos fugitivos, pois muitos não suportavam viver tendo que aguentar maus tratos e castigos de seus feitores, como permanecerem amarrados aos troncos, sob sol ou chuva, sem água e sofrendo com açoites e chicotadas. O local abrigou uma população de mais de vinte mil habitantes.

Ao longo da história, os negros não foram tratados com respeito, passando por grandes sofrimentos. Pelo contrário, foram escravizados para prestar serviços pesados aos homens brancos, tendo que viver em condições desumanas, amontoados dentro de senzalas. Muitas vezes suas mulheres e filhas serviam de escravas sexuais para os patrões e seus filhos, feitores e capitães do mato, que depois as abandonavam.

As casas dos escravos eram de chão batido, não tinham móveis nem utensílios para cozinhar. As esposas dos barões é quem lhes concedia alguns objetos, para diminuir as dificuldades de suas vidas. Nem mesmo estando doentes eram tratados de forma diferente, com respeito e dignidade. Ficavam sem remédios e sem atendimento médico, motivo pelo qual inventaram medicamentos com ervas naturais, ações aprendidas com os índios durante o período de colonização.

Algumas leis foram criadas para defender os direitos dos negros, pois muitas pessoas não concordavam com a escravização. A Lei do Ventre Livre foi a primeira delas, criada em 1871, concedendo liberdade aos filhos dos escravos nascidos após a lei. No ano de 1885, criaram a Lei dos Sexagenários, dando liberdade aos escravos com mais de sessenta anos de idade. Porém, com a Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel em 13 de maio de 1888, foi que os escravos conquistaram definitivamente sua liberdade.

O grande problema dessa libertação foi que os escravos não sabiam realizar outro tipo de trabalho, continuando nas casas de seus patrões, mesmo estando libertos. Com isso, a tão esperada liberdade não chegou por completo. As oportunidades de vida que tiveram eram limitadas apenas aos trabalhos pesados, como não haviam estudado e não aprenderam outros ofícios além dos braçais, porém, alguns conseguiram emprego no comércio.

O Dia da Consciência Negra surgiu para lembrar o quanto os negros sofreram, desde a colonização do Brasil, suas lutas, suas conquistas. Mas também serve para homenagear àqueles que lutaram pelos direitos da raça e seus principais feitos. Nesta data são realizados congressos e reuniões discutindo-se a história de preconceito racial que sofreram, a inferioridade da classe no meio social, as dificuldades encontradas no mercado de trabalho, a marginalização e discriminação, tratando-se também de temas como beleza negra, moda, conquistas, etc.

Esse dia comemorativo foi oficialmente instituído em todo país através a lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011, mas NÃO é Feriado Nacional. Apesar disto, foi decretado com Feriado Municipal em milhares de cidades e Feriado Estadual nos seguintes estados para: Alagoas, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Rio de Janeiro e Roraima. Em Minas Gerais: 12 cidades mineiras têm feriado do Dia da Consciência Negra em 20 de novembro: Além de Paraíba, Belo Horizonte, Betim, Guarani, Ibiá, Jacutinga, Juiz De Fora, Montes Claros, Pouso Alegre, Santos Dumont, Sapucaí-Mirim e Uberaba.

Para refletir

Enquanto esperava a porta ser aberta para encontrar o namorado, a jovem negra foi confundida no corredor do prédio com a empregada da casa. No ponto de ônibus, o rapaz negro, que aguardava o coletivo, foi revistado pela polícia, mas o amigo nem foi tocado por ser branco. Ao entrar no restaurante, num bairro nobre da cidade, a menina negra percebeu olhares incomodados com a sua presença. Dentro do carro com mais três pessoas, o rapaz, que estava no banco de trás, foi o único a ter os documentos pedidos pelo PM, que suspeitava de ele ter sequestrado o amigo, no carona por ser negro. Essas histórias não são obras de ficção. Marcaram, respectivamente, a vida de muitos de nossos irmãos. Eles viveram tais situações na pele, justamente por tê-la mais escura. E agora, de certa forma, se veem nos seus personagens: Raquel, de “O outro lado do paraíso”; Edgar, de “Tempo de amar”; Ellen, de “Malhação”, e Dom, de “Pega pega”. Atualmente, todas as novelas da Globo trazem a luta contra o racismo em lugar de destaque.

Velhos estereótipos que ultrapassam os tempos

Alguns clichês ainda permeiam a vida dos negros. Como o de que mulheres negras são boas de cama. “Não é só homem que diz isso, já ouvi de mulher também. ‘O que vocês fazem, hein?’. E tem aqueles que querem a gente por nunca terem ficado com uma negra. É nojento”, diz Erika.

Heslaine vai além: “E há os caras que ficam com você, mas não querem assumir uma relação. A solidão da mulher preta é real”.

Por ter irmã, David entra na discussão: “Os caras acham fetiche: ‘Preto tem sangue quente’. Mas, na hora de bancar o sentimento, rejeitam.” O ator Marcelo Melo conta que também já ouviu a máxima de que todo negro é bem dotado. “Isso é balela. Eu me preocupo mais com os negros que morrem diariamente do que com uma coisa boba dessa”, dispara.

Muitos negros quanto Marcelo já namoraram mulheres brancas — David, inclusive, está há 12 anos, sendo seis de casamento, com a engenheira Camila Coimbra . Ambos concordam que sentimento não passa pela melanina: “A empatia , a vontade de estar com alguém, independe da cor da pele”, brada Marcelo.

— Somos a maioria da população, mas o Brasil é um país muito preconceituoso. O momento que vivemos remete à música “Beira da piscina”, do rapper Emicida: “Xô devolver o orgulho do gueto/ E dar outro sentido pra frase: ‘tinha que ser preto’”. Estamos conseguindo, com muita raça — arremata o esperançoso Marcello Melo. Os quatro globais concordam que os negros estão mais unidos e se olhando mais. No entanto, ainda é utópico crer no fim do preconceito.

Eventos na cidade

O Dia da Consciência Negra, terça-feira, 20/11, traz várias atrações durante o dia, a na Praça João Pinheiro, onde existe um busto em homenagem a Zumbi dos Palmares com apresentações musicais, danças e intervenções poéticas. A entrada é franca. Os eventos são organizados pelo movimento negro Raiz de Baobá.

Direto da Redação

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