Na noite de domingo, 2 de setembro, na Quinta da Boa Vista, o cenário era de perplexidade diante da dimensão catastrófica do incêndio do Museu Nacional. A polícia tentava barrar pessoas indignadas que vinham oferecer seus braços para remediar a tragédia, alguns professores, estudantes e funcionários montaram vigília e estavam lá estarrecidos ao verem seus trabalhos de vida ardendo em chamas.

Bombeiros chegavam impotentes. Poucos jatos de água cortavam a fumaça caindo nas brasas, numa falta evidente de planejamento para uma tragédia dessa dimensão que poderia ocorrer – descaso não dos bombeiros que estavam lá trabalhando, mas daqueles que construíram de forma objetiva a “falta de condições”.

Foi um domingo quente de sol no Rio, já uns dias sem chover, o que contribuiu para deixar todo o ar mais inflamável. Hidrantes estavam sem água. Há cada 20 minutos ou meia hora, chegava um caminhão pipa com água, apressado. Na escuridão do breu da mata da Quinta, reluzia ainda mais assustadora as chamas imensas que ganhavam um contorno mais apocalíptico nesse cenário devastador.

As chamas cresciam, e dava para ver voar pela força do vapor matérias físicas, misturadas com a fumaça: não deixava de pensar o que estava sendo destruído ali, uma tese, uma dissertação, uma flauta indígena, um cocar, uma planta rara coletada há 200 anos? Na vigília, era terrível ver as expressões de sofrimento de quem tinha em mente exatamente o que estava sendo consumido.

Cheguei no Museu pouco depois das 10 da noite, o incêndio começara por volta das 19:30hs e o fogo crescia e ardia cada vez mais, e seguiu ardendo no amanhecer, fogo de mais de 12 horas, ardeu até quase o amanhecer.

Os primeiros andares estavam em brasa fumegante, a torre esquerda queimando incessantemente com chamas fortes saindo pelas janelas, quando pouco depois explodiu em chamas ainda maiores a torre direita. O fogo se alastrava rápido. A pouca água que jorrava da mangueira de um caminhão dos bombeiros era um fio inofensivo nesse cenário. E eram poucos caminhões, poucos bombeiros, poucos recursos diante de uma catástrofe gigantesca.

No ar, um misto de tristeza profunda e revolta. Raiva, indignação. Alguns estudantes e pesquisadores ali na frente do Museu, ora choravam, ora expressavam raiva pura diante desse crime premeditado: o incêndio é um crime contra a história do Brasil, contra a luta por direitos, contra a ciência que poderia produzir um conhecimento para uma vida melhor, ajudar a combater as mudanças climáticas, a mudar nosso modo de se relacionar com o planeta e a deixar o mundo habitável para as futuras gerações, e menos desigual, menos injusto. Um epistemicídio anunciado, que caminha ao lado do genocídio em marcha. Um projeto de país que se funda na destruição.

O fogo no Museu Nacional é uma das maiores tragédias da humanidade – sim, muito além do Brasil -, é como a queima da Biblioteca de Alexandria da história do Brasil, da história da fauna, da flora, da história dos povos indígenas, da colonização… É uma destruição de memórias, de livros, de peças, de artefatos, de áudios, de imagens, de fósseis que sobreviveram a milhares de anos, de vidas inteiras dedicadas a pesquisa, de conhecimento acumulado para a humanidade, um acervo imprescindível para as futuras gerações. Mataram o conhecimento e, nesse sentido, provocaram um epistemicídio.

Ainda que não exista até o momento a determinação das causas do incêndio, certamente as condições para que ele ocorresse de forma tão devastadoras é sim um crime. E ao mesmo tempo, reflexo do País que nos tornamos, um país bruto, insensível, ignorante, desigual, autoritário.

Cortes das bolsas, falta de investimentos básicos. Se foi com Temer que ruiu o Museu, assim como tantos outros espaços públicos estão sendo destruídos, é evidente que muito poderia ter sido feito antes. Mas é difícil no país que se construiu, algum ministro ou governante pensar em um projeto que deve levar mais de dez anos, como seriam necessários para realizar verdadeiras obras no Museu Nacional.

Agora, o governo anuncia postumamente que havia fechado um acordo com o BNDES de cerca de 20 milhões de reais para a infraestrutura básica — enquanto isso, ali do lado do Museu Nacional, era transtornador ver o Estádio do Maracanã que recebeu mais de um bilhão poucos anos atrás. Há um descompasso tremendo.

E não foram apenas peças do acervo do Museu Nacional que foram corroídas: havia milhares de peças de outros museus e centros de pesquisas, como, por exemplo, cabeças esculpidas pelo povo mundurucu, que pertenciam ao Museu Paraense Emílio Goeldi e haviam sido emprestadas para uma exposição há cerca de cem anos. Era um museu verdadeiramente nacional.

As primeiras notas emitidas pelo governo mancham suas próprias mãos. Era anunciado o risco, ameaças de fechamento do museu, cortes nas bolsas de pesquisas e o governo sabia que estava deixando o país inteiro exposto com os cortes irresponsáveis.

O estrangulamento da Universidade Federal do Rio de Janeiro, os cortes seguidos do governo federal, o descaso, o desdém não são apenas falta de interesse, mas sim “um projeto”, como já disse Darcy Ribeiro.

Por isso, um epistemicídio, a morte do conhecimento, que caminha lado a lado, ao genocídio em curso dos povos indígenas, da população jovem negra, e do crescente fascismo.

Destruir o Museu Nacional é uma vitória da intolerância, do Brasil escravista e colonizador, talvez esses alguns fantasmas que podem ter sido exumados pelo fogo e que estão vivendo tão junto na nossa contemporaneidade.

Por Felipe Milanez – Professor de Humanidades na Universidade Federal da Bahia. Pesquisa e milita em ecologia política — publicado 03/09/2018 10:47hs – Fonte: #Carta / JC

Comentários

Publicidade