O tema abordado hoje pelo Reverendo Bernardino Ovelar é de suma importância, a data comemorativa ao Dia da Mães nos remete ao conhecimento do peso de sua responsabilidade e das das suas limitações ao aceitar ser mãe aos 15 anos de idade, Criar e educar o Filho de Deus que se fez homem para a salvação da humanidade.

Falar da presença de Maria nas diversas ocasiões com Jesus exigiria bastante tempo, o que inviabilizaria esta comunicação, mas nesta data é importante fazer uma reflexão sobre o momento em que as mães são homenageadas por seus filhos.

Uma das marcas da Comunhão anglicana é o seu ethos inclusivo, compreensivo e diverso. Isto significa que os anglicanos optam por manter uma espécie de via média entre Roma e Genebra. Ou seja, dentro do anglicanismo existe a explícita e consciente tomada de posição por se manter a Tradição Católica da Igreja, ao lado da Tradição Protestante. O anglicanismo não nega os séculos de tradição que recebeu da Patrística e da Escolástica, mas também não rejeita o sopro renovador trazido pela Reforma protestante do século XVI.

Na prática, isto significa que algumas comunidades, ou até mesmo dioceses e Províncias, poderão se identificar mais com a tradição católica ao passo que outras se ligarão mais à vertente reformada.

Portanto é preciso reconhecer que a prática histórica da Igreja Anglicana tem reservado um lugar especial para Maria por ter sido a Mãe de Jesus. Este espaço reservado para a pessoa da Virgem nas comunidades, tem sido bem maior do que o espaço encontrado em outras comunidades da Reforma

A pessoa da Virgem Maria

No calendário do atual LOC, encontramos três datas dedicadas a Maria. A primeira é a festa da Anunciação da Bem-aventurada Virgem Maria, comemorada no dia 25 de março. A segunda é a festa da Visitação da Bem-aventurada Virgem Maria, comemorada dia 31 de Maio, e a terceira é a festa da Bem-aventurada Virgem Maria, celebrada no dia 15 de agosto. Devemos ressaltar que além destas datas, os antigos Livros de Oração Comum da Província do Brasil falavam de uma outra festa chamada de “Purificação da Virgem Maria” celebrada no dia 02 de fevereiro e que, mais tarde, passa a se chamar de “Apresentação de Nosso Senhor Jesus Cristo no Templo”. E, no segundo domingo de Maio, por ocasião do Dias das Mães, não podemos nos esquecer daquela que foi Mãe do Filho de Deus.

Os Próprios lidos nestes dias nos dão uma pista do papel que a Virgem Maria desempenha na teologia anglicana.

Alguém já disse que “quem procura um santo busca um exemplo”. É assim que a Virgem Maria é vista pelos cristãos. Como um exemplo em muitas áreas da vida, ela é, primeiro, exemplo de humildade. Ao ser confrontada com o Anjo ela reconhece sua condição humana e fala de sua indignidade. Maria nos dá um grande exemplo. Nos mostra que Deus pode “encher de graça” aqueles que dela necessitam.

Deus olhou para ela, uma moça pobre de apenas 15 anos de idade, desprezada e insignificante até então morando em uma aldeia de Nazaré sua cidade natal. Ele poderia ter escolhido ricas importantes, nobres e poderosas rainhas, filhas de príncipes e grandes autoridades. Poderia muito bem ter escolhido a filha de Anãs ou Caifás, que teriam sido os maiorais do país. Porém ele olhou para aquela menina, por pura bondade e usou para este fim uma moça humilde e desprezada. Diante dele ninguém deveria vangloriar-se de ter sido digno disso.

Ela não se envaidece de sua virgindade nem de sua humildade, mas apenas da graciosa observação divina – Faze em mim segundo a Tua vontade. Maria é também vista como exemplo de desprendimento na educação do filho Jesus. Poderíamos até especular (e sei que isto já foi feito) sobre o que teria acontecido se ela tivesse rejeitado a proposta de Deus. Mas o dado é que ela abraçou o convite e, ao fazer isso, disse não a sua própria vida, a seus projetos, a seus sonhos, a tudo o que havia imaginado com seu marido José. Ela estaria eternamente ligada àquele que seria seu Filho e Salvador do mundo e à sua Missão.

Maria é apontada como exemplo de submissão. Ela disse: “Eis aqui a serva do Senhor. Cumpra-se segundo a sua vontade”. Ela era uma mulher submissa ao seu Deus e como tal, se apresenta para servir às ordens de Deus, com tudo o que tem: sua vida!

Ela é também exemplo de santidade. Ser “santo” significa ser “separado”, “dedicado” para algo ou alguém. E Maria era assim: dedicada com todo o seu corpo e alma a Deus e ao seu propósito. Maria é, também, vista como a mais Bem-aventurada de todas as mulheres. Por ser a mãe do Salvador; por receber em seu ventre o Verbo da vida; por amamentar aquele que nos sustenta com sua mão; por cuidar daquele que cuida de nós. O que ela presenciou, viveu, sentiu, contemplou, nunca jamais poderá ser feito por outra mortal. Ela, mais do que qualquer outra é, sim, Bem-aventurada!

Maria é um fator indispensável na proclamação bíblica pela ausência da ênfase em sua pessoa, pelo significado infinito de sua modéstia e humildade, de quem só recebe a bênção e serve de exemplo as mulheres e em especial a todas as mães.

Pontos de tensão

Depois do que foi dito, é bom falar um pouco dos pontos de tensão existentes entre nossas tradições. Primeiro, reflitamos sobre o culto. Os anglicanos fazem um culto centrado na Trindade. Do início ao fim do culto há inúmeras referências à Santíssima Trindade. Nosso louvor, nossa adoração e nossas orações são todas feitas em direção a Deus, pela mediação de Jesus Cristo. A prática de se dirigir orações a Maria ou aos demais santos é inexistente na Igreja anglicana. A compreensão das Escrituras só nos autoriza orar a Deus. Em função da doutrina da Comunhão dos santos, contudo, não há problemas em se aceitar que os Santos na glória orem e intercedam pela Igreja Militante, contudo esta oração é vista como uma intercessão no sentido lato ou genérico, e não no sentido estrito ou específico.

Lamentamos que a figura da Virgem Maria seja completamente e deliberadamente esquecida na maioria das comunidades que surgiram em decorrência da Reforma protestante do século XVI. É nossa convicção, no entanto, que a Bem-aventurada Virgem Maria ocupe um lugar especial na Comunhão anglicana. Ela é honrada como Bem-aventurada; honrada como Virgem e como Mãe de Deus. Mas, como diz o Reverendo Bernardino no “Palavra de Fé” “a evocação de Maria entre os anglicanos, em sua maioria, é no sentido de tê-la como referência e modelo, mas não como advogada ou co-operadora na Graça”. Como Mãe e mulher na sua importância ímpar de ter gerado, criado, educado e fazer parte da história de Salvação.

Por interceder junto ao filho nas Bodas de Caná, quando aconteceu o primeiro milagre da água que se transforma em vinho. “Fazei tudo que Ele vos disser”.

Conclusão

Como vimos, há, um espaço relevante que é dedicado à pessoa da virgem Maria. No entanto, este espaço tende a ser menor do que aquele que é dado pela igreja romana. Afinal quem não gostaria de ser a Mãe do Senhor Jesus? Vimos também que Maria, em particular, é exemplo de vida para todos os cristãos pela sua dedicação e perseverança.

Para concluir, devemos reconhecer que por trás de toda dificuldade que temos para sentar e refletir sobre os grandes temas da salvação, existe uma história cheia de ódio, de desamor, de intriga e de sofrimento. Não é fácil fazer com que estas parcelas separadas (pela falta de humildade) do corpo de Cristo reconheçam sua parcela de culpa na separação. Mas pelo menos devemos olhar para o Colégio Apostólico com outros olhos. Eles eram homens diferentes; com panos de fundo diferentes; origens diferentes e temperamentos diferentes. Mas eles tinham duas coisas em comum: o desejo de cumprir a Missão que seu Senhor lhes dera e a presença de Maria entre eles. Como uma mãe preocupada com o bem estar dos filhos, Maria nos dá a mesma orientação que deu àqueles que estavam nas bodas de Caná e que serve de texto base para este momento de redenção a todas as mães do mundo: “fazei tudo quanto ele vos disser” (Jo 2:5). Se conseguirmos, ainda hoje, ouvir as instruções de Maria como Mãe de Jesus, com certeza não faltará alegria (vinho) entre os convidados para a festa (do Reino). Que o exemplo da Bem-aventurada Virgem Maria nos inspire a todos e nos faça mais consagrados ao serviço da vida e da esperança.

Hoje os tempos são outros, a educação dos filhos se tornou mais difícil, por isso espelhar-se no exemplo de Maria é a reflexão que o Reverendo Bernardino faz hoje, ao dedicar um programa especial a todas as mães, para que peçam bençãos de Sabedoria e de Fortaleza na condução da educação do filhos e que sejam reconhecidas por eles com gratidão e amor por tantos benefícios recebidos desde o nascimento. Porque de certa forma todas as mães são também Bem aventuradas.

Direção e texto: Neilo Machado – Produção e Imagens: Anderson Campos – Gravado nos Estúdios da TVJC

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