O Reverendo Bernardino Ovelar da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil fala esta semana sobre o preconceito e o julgamento que geralmente fazemos uns aos outros indistintamente. No passado, nós nos olhávamos “com desconfiança e hostilidade”, hoje “reconhecemo-nos como verdadeiramente somos: irmãos e irmãs em Cristo”. E, como tais – como “amigos e peregrinos” – “desejamos caminhar juntos”. Entre as colunas neogóticas e os arcos de mármore da Igreja Anglicana que indica o caminho para aumentar as relações ecumênicas entre católicos e anglicanos: um passado a ser deixado para trás e um futuro a ser construído juntos, “livres dos respectivos preconceitos”, atuando com “humildade” diante dos desafios do nosso tempo.

“Quando nós, comunidade de cristãos encontramo-nos diante de desacordos e nos colocamos diante do rosto misericordioso de Cristo para superá-los, fazemos justamente como fez São Paulo em uma das primeiras comunidades cristãs”. Paulo “nem sempre teve uma relação fácil com a comunidade de Corinto, mas ele supera as divergências do passado” e “não se resigna diante das divisões, mas se consome pela reconciliação”.

O ponto de partida é a humildade, que “não é só uma bela virtude”, mas também uma questão de identidade. Tornar-se humilde é descentralizar-se, reconhecer-se necessitado de Deus, mendicante de misericórdia

Um tesouro conservado em um vaso que facilmente pode se quebrar. São Paulo é “criticado pelas suas fraquezas”, mas “ensina que somente reconhecendo-nos como frágeis vasos de barro, pecadores sempre necessitados de misericórdia, o tesouro de Deus se derrama em nós e nos outros através de nós. Caso contrário, só seremos preenchidos com os nossos tesouros, que se corrompem e apodrecem em vasos aparentemente belos”.

Reverendo Bernardino narra a história de quatro filhos que são enviados aos mesmos campos pelo pai em diferentes estações do ano, e cada um deles ao voltar, estando no mesmo local traz aspectos e interpretações diferentes: Arvores feias e curvadas diz o primeiro, o segundo tem uma outra opinião: verdes e brotando esperanças de futuro. O terceiro não concorda: são árvores lindas repletas de flores e o último rebate: Transbordando de frutos até se curvarem de tão cheios.

Todos eles estavam certos frente as estações em que trabalharam e observaram, da mesma forma são as estações de nossas vidas e as formas como encaramos o nosso próximo.

Nós, muitas vezes, ficamos verdadeiramente escandalizados diante da notícia do quanto ainda existem nas sociedades os preconceitos de cor, raça, classe social, condição econômica ou cultural. No entanto, sem que percebamos, podemos estar agindo preconceituosamente em nossas relações com Deus, com o próximo e até conosco mesmos. O programa desta semana, “Palavras de Fé” não pretende relatar nem fundamentar as divergências correntes a respeito dos diversos preconceitos sociais, mas nos levar a seguir melhor a Jesus, que venceu todo preconceito humano com o único objetivo de acolher e salvar a humanidade, sem distinção. Tal qual o tempo segundo eclesiates capitulo 3 que nos apresenta o Reverendo Bernardino Ovelar.

Podemos começar refletindo com ele um pouco sobre o que significa o preconceito. Como o termo diz, trata-se de um conceito antecipado, um julgamento a respeito de uma pessoa, coisa ou situação. O preconceito também está muito ligado à aparência exterior da situação, coisa ou pessoa, como as estações vividas por cada filho na ilustração ao programa apresentado. Baseados no que parece, podemos julgar algo que não corresponde à verdade. Portanto, o preconceito pode ser em nossa vida um grande engano, uma grande ignorância fantasiada de “saber”. E pode aprisionar a nós e aos outros.

Nas relações interpessoais os preconceitos podem ser impedidores de grandes amizades e verdadeiras prisões que encerram as pessoas em rótulos, a partir de atos que cometem, ou que ainda estão cometendo, mas que nos impedem de vê-las em profundidade, para além do rótulo, ou perceber que são capazes de mudar. Desse modo, agimos nos arvorando de pretensos deuses, quando na realidade nem Deus é preconceituoso com nenhum de nós.

Se fosse possível humanizar a imagem de Deus a este ponto, eu diria que Deus tem muito mais fé em nós do que nós Nele. Sim, porque no fundo de nosso preconceito está a falta de fé em Deus, que a tudo e a todos pode transformar.

A triste consequência de nossos preconceitos pessoais é o preconceito social, que tanto nos escandaliza, Jesus nos advertiu: “Não julgues para nãos seres julgado”… O preconceito individual pode ser propagado pelas nossas más palavras de tal forma que não seremos mais capazes de deter esta espécie de bomba que às vezes levianamente lançamos uns contra os outros.

Tudo pode começar com um comentário, uma antipatia, uma rejeição confidenciada, e a nossa opinião pessoal tão mutável terá sido lançada como um rótulo no outro sem preocupação dos danos que tal fala pode causar. E o outro, na sua fraqueza, poderá acabar assumindo este rótulo durante toda a vida enquanto sua verdadeira imagem estará para sempre escondida no coração de Deus. Então seus talentos e tudo o que Deus tinha para fazer através dele fica sepultado como uma semente que não desabrochou, simplesmente por causa do ouvi dizer, ou por causa da calúnia lançada.

Jesus e as pessoas socialmente desprezadas e moralmente reprovadas

Ao contrário dos fariseus de sua época, sempre fechados no pequeno mundo dos seus conceitos, Jesus não classificava as pessoas, ninguém era indigno de se relacionar com Ele, por pior que fosse seu passado, sempre existia o diálogo e o perdão. Ele conseguia compreender e valorizar o ser humano independentemente de seus erros, da sua história. Isso não significava que compactuasse com o pecado, com as coisas erradas, mas que acolhia o pecador, fosse qual fosse o seu pecado com amor e perdão. Foi assim que agiu com a mulher samaritana, com Zaqueu, com Levi, com a pecadora pública e com todos os pecadores que encontrou. E foi justamente seu amor incondicional que gerou neles a transformação que os fariseus não puderam ver.

Intelectualmente encarcerados, fechados nas suas próprias ideias e na sua falsa moral, muitos não conseguiram aceitar alguém como Cristo, que veio para abrir o coração humano e nele introduzir a Lei interior, a Lei do Amor, com o poder de Deus, e não com a espada da condenação e julgamentos errados. Por isso não lhes era possível compreender por que Jesus “andava com os pecadores”, e “fazia refeições com eles”. E sua indignação gerou a inveja, que como uma bola de neve levou Jesus a um julgamento injusto. Porém na Cruz, também por eles Jesus pediu ao Pai, porque não “sabem o que fazem”. Muitos até hoje não sabem o que fazem, e em seus julgamentos e preconceitos fazem um mal tremendo aos irmãos queridos, principalmente quando estão mais próximos.
Assim como aconteceu aos algozes de Cristo, pode estar acontecendo conosco, que tantas vezes nos consideramos “bons cristãos”. O preconceito que nos impede de ir até os mais “mal afamados” para lhes dizer que Jesus os ama com atos, muitas vezes esconde a nossa inconsistência interior, porque no fundo sabemos que somos tão vulneráveis como eles, e é apenas um mistério da graça divina que nos impediu de agir como eles.

No entanto, somos continuamente alvo do amor incondicional de Deus, e por isto o mistério da misericórdia e da caridade que acolhe incondicionalmente o outro será sempre um chamado feito a cada um de nós. Dizem que quando uma porta se fecha, outras se abrem sem que antes encontremos uma mão que nos acolha como somos e estamos.

O preconceito é um veneno capaz de roer as relações entre famílias, comunidades religiosas, irmãos, amigos, conhecidos e desconhecidos, e tudo pode começar com um único olhar de julgamento de nossa própria parte. Que o Senhor nos conceda em tempo de inverno, verão, primavera e outono a graça da purificação do nosso olhar, dos nossos raciocínios e sobretudo da nossa memória, para que, escandalizados com as histórias de preconceitos que observamos nos jornais, não estejamos nós a fazer o mesmo.

A mensagem do programa de hoje “Palavras de Fé” nos leva a esta meditação, muito bem colocadas pelo nosso Reverendo Padre Bernardino Ovelar.

Direção e interpretação: Neilo Machado – Produção e Imagens: Anderson Campos
Gravado nos estúdios da TV jornal da cidade.

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