O Reverendo Bernardino Ovelar no programa “Palavra de Fé” nos brinda esta semana com um conto de Rubem Alves “A pipa e a flor” que vamos reproduzir para maior entendimento da reflexão de hoje:

“O menino que a fez estava alegre e imaginou que a pipa também estaria. Por isso fez nela uma cara risonha, colando tiras de papel de seda vermelho: dois olhos, um nariz, uma boca…

Ô pipa boa: levinha, travessa, subia alto…

Gostava de brincar com o perigo, vivia zombando dos fios e dos galhos das árvores.

  • “Vocês não me pegam, vocês não me pegam…”

E enquanto ria sacudia o rabo em desafio.

Chegou até a rasgar o papel, num galho que foi mais rápido, mas o menino consertou, colando um remendo da mesma cor. Mas aconteceu que num dia, ela estava começando a subir, correndo de um lado para o outro no vento, olhou para baixo e viu, lá num quintal, uma flor. Ela já havia visto muitas flores. Só que desta vez os seus olhos e os olhos da flor se encontraram, e ela sentiu uma coisa estranha. Não, não era a beleza da flor. Já vira outras, mais belas. Eram os olhos…

Quem não entende pensa que todos os olhos são parecidos, só diferentes na cor. Mas não é assim. Há olhos que agradam, acariciam a gente como se fossem mãos. Outros dão medo, ameaçam, acusam, quando a gente se percebe encarados por eles, dá um arrepio ruim pelo corpo. Tem também os olhos que colam, hipnotizam, enfeitiçam…

Ah! Você não sabe o que é enfeitiçar?!

Enfeitiçar é virar a gente pelo avesso: as coisas boas ficam escondidas, não têm permissão para aparecer; e as coisas ruins começam a sair. Todo mundo é uma mistura de coisas boas e ruins; às vezes a gente está sorrindo, às vezes a gente está de cara feia. Mas o enfeitiçado fica sendo uma coisa só…

Pois é, o enfeitiçado não pode mais fazer o que ele quer, fica esquecido de quem ele era…

A pipa ficou enfeitiçada. Não mais queria ser pipa. Só queria ser uma coisa: fazer o que a florzinha quisesse. Ah! Ela era tão maravilhosa! Que felicidade se pudesse ficar de mãos dadas com ela, pelo resto dos seus dias…

E assim, resolver mudar de dono. Aproveitando-se de um vento forte, deu um puxão repentino na linha, ela arrebentou e a pipa foi cair, devagarzinho, ao lado da flor. E deu a sua linha para ela segurar. Ela segurou forte. Agora, sua linha nas mãos da flor, a pipa pensou que voar seria muito mais gostoso. Lá de cima conversaria com ela, e ao voltar lhe contaria estórias para que ela dormisse. E ela pediu:

  • “Florzinha, me solta…” E a florzinha soltou.

A pipa subiu bem alto e seu coração bateu feliz. Quando se está lá no alto é bom saber que há alguém esperando, lá embaixo. Mas a flor, aqui de baixo, percebeu que estava ficando triste. Não, não é que estivesse triste. Estava ficando com raiva. Que injustiça que a pipa pudesse voar tão alto, e ela tivesse de ficar plantada no não. E teve inveja da pipa.

Tinha raiva ao ver a felicidade da pipa, longe dela… Tinha raiva quando via as pipas lá em cima, tagarelando entre si. E ela flor, sozinha, deixada de fora.

  • “Se a pipa me amasse de verdade não poderia estar feliz lá em cima, longe de mim. Ficaria o tempo todo aqui comigo…”

E à inveja juntou-se o ciúme. Inveja é ficar infeliz vendo as coisas bonitas e boas que os outros têm, e nós não. Ciúme é a dor que dá quando a gente imagina a felicidade do outro, sem que a gente esteja com ele. E a flor começou a ficar malvada. Ficava emburrada quando a pipa chegava. Exigia explicações de tudo. E a pipa começou a ter medo de ficar feliz, pois sabia que isto faria a flor sofrer.

E a flor aos poucos foi encurtando a linha. A pipa não podia mais voar. Via ali do baixinho, de sobre o quintal (esta era toda a distância que a flor lhe permitia voar) as pipas lá em cima… E sua boca foi ficando triste. E percebeu que já não gostava tanto da flor, como no início… Essa história não terminou. Está acontecendo bem agora, em algum lugar… E há três jeitos de escrever o seu fim. Você é que vai escolher.
Primeiro: A pipa ficou tão triste que resolveu nunca mais voar.

  • “Não vou te incomodar com os meus risos, Flor, mas também não vou te dar a alegria do meu sorriso”.

E assim ficou amarrada junto à flor, mas, mais longe dela do que nunca, porque o seu coração estava em sonhos de voos e nos risos de outros tempos.

Segundo: A flor, na verdade, era uma borboleta que uma bruxa má havia enfeitiçado e condenado a ficar fincada no chão. O feitiço só se quebraria no dia em que ela fosse capaz de dizer não à sua inveja e ao seu ciúme, e se sentisse feliz com a felicidade dos outros. E aconteceu que um dia, vendo a pipa voar, ela se esqueceu de si mesma por um instante e ficou feliz ao ver a felicidade da pipa. Quando isso aconteceu, o feitiço se quebrou, e ela voou, agora como borboleta, para o alto, e os dois, pipa e borboleta, puderam brincar juntos…

Terceiro: a pipa percebeu que havia mais alegria na liberdade de antigamente que nos abraços da flor. Porque aqueles eram abraços que amarravam. E assim, num dia de grande ventania, e se valendo de uma distração da flor, arrebentou a linha, e foi em busca de uma outra mão que ficasse feliz vendo-a voar nas alturas”.

Rubem Alves

A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil foi criada para ser um farol, indicando o caminho certo para a verdadeira realização do amor e da esperança entre duas pessoas. Apesar disso, infelizmente, muitas igrejas de hoje se rendem ao discurso do mundo sem sequer ter consciência disso. Nossa pregação pode facilmente reforçar a ideia de que somos o que fazemos, dizendo às pessoas que devem se esforçar para fazer o que agrada a Deus, para que Ele continue a aceitá-las do jeito que elas são, e não como gostaríamos que elas fossem. No entanto, o verdadeiro cristianismo baseia toda a sua esperança, não no que temos que tentar fazer para merecê-lo, mas naquilo que Deus prometeu fazer, através e através de nós, por causa de Seu amor.

Em uma era de incertezas, quando a busca pela verdade foi substituída por uma busca incessante pelo “eu verdadeiro”, o anglicanismo está fundamentado na sólida rocha de Jesus do amor ao próximo.

O Reverendo Bernardino na sua lição de hoje nos mostra a importância da confiança para um bom relacionamento a dois, principalmente quando se comemora o Dia dos Namorados. Devemos sempre lembrar que a celebração do amor e verdadeiramente um gostar do outro, e não se impor como se o cônjuge, ou parceiros no amor (namorados) fossem donos um do outro, deixando que o ciúmes, a raiva e outros sentimentos estraguem a felicidade do casal.

Numa época em que tantas denominações cristãs estão questionando os fundamentos da fé e do amor entre as pessoas que se gostam, somente a eterna sabedoria divina do cristianismo apostólico católico – que é abraçado pelo anglicanismo – pode efetivamente contrariar a falsa esperança oferecida pelos artifícios de desejos enganosos do coração moderno no pós-cristianismo. O relacionamento entre duas pessoas devem se basear na segurança. Do contrário é melhor nem continuar.

O Cristo veio para proclamar uma mensagem de amor entre as pessoas que tem o poder de convocar uma comunidade inteirar a refletir na história que ilustra essa mensagem desta semana a flor e a pipa e toda liberdade que a estória encerra. Ele enfatiza que, através da Palavra e dos sacramentos, o poder do Evangelho para mover seus corações para o amor a Deus e aos outros. Quando se ama verdadeiramente é preciso confiar um no outro.

Casais tem problemas e devem superar esses problemas em prol do bom relacionamento. O Reverendo em determinado momento afirma também que a promessa não deveria ser o de fidelidade, mas sim de felicidade, um prometer ao outro que buscarão juntos a felicidade reciproca e verdadeira. Gostar não é possuir é dar linha e deixar a pipa voar livremente.

Desde que os humanos aprendem através dos sentidos (através do que vemos, ouvimos, cheiramos, saboreamos e tocamos), devemos acreditar que quando a Palavra de Deus é acompanhada de coisas tangíveis como água, pão e vinho então as verdades de Suas promessas afetam as pessoas mais profundamente. Quando o ministro recita a narrativa bíblica da Última Ceia, o Espírito de Deus vai ao coração dos fiéis, fortalecendo sua fé e intensificando seu amor um pelo outro, afinal a família que reza unida, permanece unida.

Este é o coração da visão litúrgica do programa “Palavra de Fé” desta semana: O amor generoso de Deus, constantemente comunicada pelo Espírito Santo na repetição regular das promessas das Escrituras por meio da Palavra e dos Sacramentos, inspirando o amor humano grato, arrastando os para Deus em busca da felicidade a dois, para o próximo e para uma vida em busca da santidade.

A transformação externa começa com a renovação interna de nossos desejos produzidos pelo amor um pelo outro. Esta é a chave para o desenvolvimento humano. Graça gera gratidão. A gratidão dá nascimento ao amor. O amor dá origem ao arrependimento. O arrependimento produz boas obras. Boas obras contribuem para uma sociedade melhor. Dada sua ênfase na doutrina paulina da salvação, o anglicanismo é talvez a melhor resposta para aqueles que estão buscando um meio de transformação autêntica de dentro para fora. Esta é a mensagem para os que vivem a dois, para os que pretendem constituir família.

Para aqueles que fazem das necessidades dos outros uma prioridade, o foco na missão do amor encoraja o que Deus já colocou em seus corações. Para aqueles que estão procurando uma mudança real em si mesmos e na sociedade, na vida a dois, a perspectiva é renovação das afeições do ser humano fornecendo através do amor os meios mais autênticos para o desenvolvimento da experiência humana na celebração do amor como elo de ligação comum entre duas pessoas.

Direção e interpretação: Neilo Machado – Produção e Imagens: Anderson Campos
Gravado nos estúdios da TV jornal da cidade.

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