“Prefiro a poesia. Um risco, um rabisco. E, depois disso, a eternidade”. “O objetivo mais alto do artista consiste em exprimir na fisionomia e nos movimentos do corpo as paixões da alma” – Leonardo Da Vinci.

Esse pensamento do célebre mestre do Alto Renascimento, expressa imensuravelmente o mundo hipotalássico da psicanálise e da poesia.

A natureza humana com arte, poesia e psicanálise é viva, frescor de primavera, perfume de rosas e a beleza da saúde física e psicológica.

A pedagogia no esmero da arte forma o sujeito na mais alta educação da dignidade humana.

Poesia é o conforto diante do sofrimento, a resistência diante das incompatibilidades, o amor no confronto com o ódio, a sapiência na demolição da ignorância, a arte na beleza da alma e a serenidade com dignidade. A poesia torna o sujeito resiliente, com empatia e potencializa a realizações de seus sonhos.

A poesia conduz viver em tempos de sentimentos interessantes e sabe lidar com a complexidade da vida. A sensibilidade poética é abissal no cerne da realidade social e congêneres.

A psicanálise enquanto ciência do psiquismo aborda a experiência do inconsciente, cuja terapia é proporcionar alívio dos traumas e de outros males e configurar o analisado no processo da saúde física e emocional.

A psicanálise na sua funcionalidade processa seguridade ao paciente acossado pelo medo da morte, pela dor da perda, pela doença, pela decadência do corpo, pela maldade dos outros e pelas injustiças sociais. Como arte e terapia, a psicanálise é um porto seguro e a revelação de um belo quadro de novos horizontes.

O Poeta e o Psicanalista

A psicanálise e a poesia iluminam os nossos sentimentos numa jornada de superação de obstáculos e na confiança sublime da felicidade, e conduzem-nos na beleza de novas realizações. A psicanálise e a poesia auxiliam-nos na abissalidade do bem absoluto, do amor, do afeto e na resiliência. A psicanálise e a poesia fundamentam a terapia da arte com melodia, com calma, harmonia e alegria da alma. Psicanálise e poesia levam os nossos corações as profundas e salutares emoções.

O poeta, um artesão de palavras que forja o verbo com martelo e bigorna. O psicanalista cria palavras com poder de gerar outras palavras que penetram no inconsciente produzindo libertação de seus males.

Freud em seu ensaio de 1909 “O poeta e o fantasiar”, ele pergunta-se em que fontes o poeta se embriaga para criar suas obras.  Neste ensaio (“O poeta e o fantasiar”), Freud compara o trabalho criativo do escritor ao da criança que brinca e encena criativamente, ação que lhe proporciona, através de um prazer prévio, de uma fruição, um jogo com o imponderável. Compara o poeta também ao adulto em devaneios, com seu fantasiar propiciador de cenas que encobrem, dentro de certos limites, o abismo de Real que ali subjaz. Todavia o escritor cria e expõe pela Bela Forma a sua fantasia, compondo uma cumplicidade com o leitor, que a toma para si, dela usufrui, e com ela realiza seus próprios anseios. (FREUD, S. Escritores criativos e seus devaneios. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v. IX.).

“Os poetas e os filósofos descobriram o inconsciente antes de mim. O que eu descobri foi o método científico que nos permite estudar o inconsciente”, disse Dr. Sigmund Freud, o criador da psicanálise. Freud chamou a fala do analista de “arte da interpretação” e Lacan a qualificou como poética.

O analista que não é “viciado” na leitura, não é apreciador da arte, não tem também nenhuma condição de ser psicanalista. Freud era um leitor que se esmerava de forma contundente e consistente. Ele escrevia com uma qualidade monumental! Seus livros são lidos com sucesso no mundo inteiro. Sua biblioteca, em Viena, abrigava cerca de 20 mil títulos. De Shakespeare a Dostoievski. A psicanálise nasce no contexto das ciências médicas e no auge cultural de Viena, capital do Império Austro-Húngaro.

Marialzira Perestrello

Marialzira Perestrello é uma das personalidades mais ricas da vida intelectual brasileira. Não surpreende, assim, que ela tenha recebido homenagens como a que lhe foi prestada recentemente pelo Conselho Nacional de Mulheres do Brasil, que a elegeu como uma das ”Dez mulheres de 2004”.

Marialzira Perestrello, tinha pelo menos duas almas, ou duas vocações: uma psicanalítica e outra poética. “A psicanálise treinou Marialzira para a escuta clínica, mas a poesia a adestrou em outra escuta, a das vozes interiores”, escreve Sérgio Paulo Rouanet, que é diplomata, filósofo, professor universitário, tradutor, ensaísta brasileiro e membro da Academia Brasileira de Letras desde 1992.

Grande Poetisa brasileira

Carolina Maria de Jesus (Sacramento/MG, 1914-São Paulo, 1977)

Quando questionada sobre o motivo de escrever, Carolina respondeu: “Quando eu não tinha nada o que comer, em vez de xingar eu escrevia. Tem pessoas que, quando estão nervosas, xingam ou pensam na morte como solução. Eu escrevia o meu diário”. A moradora da antiga favela do Canindé, zona norte de São Paulo, trabalhava como catadora e registrava seu cotidiano em páginas amareladas encontradas no lixo. A escritora foi descoberta por um jornalista (Audálio Dantas), e assim teve publicado seu livro Quarto de Despejo – Diário de uma favelada que trata do dia a dia repleto de discriminação de uma mulher negra, mãe, pobre e favelada. Além disso, o livro é referência para os estudos socioculturais brasileiros e apesar de ter sido publicado em 1960, narra uma realidade que infelizmente ainda é a de muita gente.

“O livro… me fascina. Eu fui criada no mundo. Sem orientação materna. Mas os livros guiou os meus pensamentos. Evitando os abismos que encontramos na vida. Bendita as horas que passei lendo. Cheguei à conclusão que é o pobre quem deve ler. Porque o livro, é a bussola que há de orientar o homem no porvir (…)”.

  • Carolina Maria de Jesus, em “Meu estranho diário”.

Conclusão

Sem arte, sem poesia e sem psicanálise, ou melhor, sem investimento na saúde mental, não há educação, não há qualidade de vida do indivíduo, não há família harmoniosa, não há nobreza na cultura e não há justiça social. A dignidade da pessoa humana, se encontra na arte, na poesia, na psicanálise e na cultura de vida!

Dr. Inácio José do Vale
Psicanalista Clínico, PhD
Professor e Conferencista
Atende na Comunidade de Ação Pastoral – CAP
Bairro São Cristóvão – 
Pouso Alegre – MG
Membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise Contemporânea e Membro da Ordem Nacional dos Psicanalistas/RJ – Apresentador do Programa Psicanálise Clínica pela TVJC

Direção: Neilo Machado – Produção e Imagens: Anderson Campos

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